terça-feira, setembro 27, 2005

A Tartaruga é Pipista

Anuncío-vos (mais) um livro dedicado a explorar os diferentes fenómenos associados ao Pipismo: GEB (Godel, Escher, Bach) - Laços eternos - uma fuga metafórica sobre mentes e máquinas no espírito de Lewis Carroll.

Atentem neste diálogo:


Tartaruga- [...] Agora pode ver como o meu casco é verde.
Aquiles- Um casco tão bonito, sadio e verde.
Tartaruga- Verde? Não é verde.
Aquiles- Como? Não acaba de dizer que é verde?
Tartaruga- Sim.
Aquiles- Então estamos de acordo: é verde.
Tartaruga- Não, não é verde.
Aquiles- Ah, já entendo o seu jogo. Está a dar-me a entender que o que diz não é necessariamente verdade; que as tartarugas brincam com as palavras; que as suas afirmações e a realidade não se coadunam necessariamente; que...
Tartaruga- Não é nada disso. As tartarugas tratam as palavras como coisas sagradas; as tartarugas reverenciam a precisão.
Aquiles- Muito bem, então porque me disse que o seu casco é verde e também não é verde?
Tartaruga- Nunca disse isso, mas gostaria de ter dito.
Aquiles- Teria gostado de dizer isso?
Tartaruga- De modo algum. Lamento dizê-lo, discordo totalmente disso.
Aquiles- Mas isso contradiz claramente o que disse antes!
Tartaruga- Contradiz? Contradiz? Nunca me contradigo. Não faz parte da natureza de uma tartaruga.
Aquiles- Desta vez apanhei-a, sua trapalhona evasiva. Apanhei-a numa contradição total.
Tartaruga- É. Acho que sim.
Aquiles- Lá está de novo! Agora está a contradizer-se mais ainda! Está tão envolvida em contradições que é impossível argumentar consigo.
Tartaruga- Não é verdade. Argumento comigo mesma sem qualquer problema. talvez o problema esteja em si. Arriscar-me-ia a conjecturar que talvez seja você o contraditório, mas está tão emaranhado na sua própria teia que não pode ver o como está a ser inconsistente.
Aquiles- Que conjectura insultante! Vou mostrar-lhe que você é a contraditória e não poderá haver dúvidas a esse respeito.
Tartaruga- Bem, se é assim, a sua tarefa deve ser fácil. O que poderia ser mais simples do que assinalar uma contradição? Vamos lá! Experimente.
Aquiles- Hum... Não sei ao certo por onde começar. Ah... Já sei. Primeiro disse que (1) o seu casco é verde e, depois, passou a dizer que (2) o seu casco não é verde. O que é precso dizer mais?
Tartaruga- Mas, por favor, assinale a contradição. Deixe-se de rodeios.
[...]